Na esquina da Rua das Acácias com a Avenida Central, em Belo Horizonte, a Mercearia da Dona Neuza funciona há 34 anos. Durante a pandemia, o movimento caiu 60%. Dona Neuza chegou a pensar em fechar as portas. Hoje, três anos depois, o faturamento está 15% acima do que era em 2019 — e o segredo, ela conta, não foi aplicativo de entrega nem promoção agressiva. Foi conversa.
O contexto que ninguém esqueceu
Entre 2020 e 2022, o Brasil viu milhares de pequenos comércios fecharem definitivamente. Dados do setor indicam que lojas de bairro foram especialmente afetadas: sem escala para negociar com fornecedores, sem equipe para operar delivery e, muitas vezes, sem reservas financeiras para atravessar meses de queda brusca de receita. Para muitos lojistas, a pandemia não foi uma crise passageira — foi um divisor de águas.
Mas entre os que resistiram, algo interessante aconteceu. A relação com o cliente, que já era próxima por natureza, se aprofundou. Vizinhos que antes compravam apenas o essencial passaram a enxergar a loja de esquina como extensão da casa — um lugar seguro, familiar, onde se podia pedir para deixar a compra na porta sem burocracia.
Reinvenção sem perder a essência
Seu Geraldo, dono de uma padaria no bairro de Santana, em São Paulo, conta que instalou um grupo de WhatsApp para o bairro durante o isolamento. O grupo, que começou com 30 famílias, hoje tem 280 participantes. Nele, ele avisa quando o pão francês sai do forno, aceita pedidos e, de quebra, compartilha notícias do bairro.
"O WhatsApp não substituiu a padaria. Trouxe as pessoas de volta. Hoje elas vêm buscar o pão, mas ficam cinco minutos conversando. Isso não tinha antes."
Outras lojas adotaram estratégias semelhantes: listas de compras por mensagem, entrega a pé para idosos, parcerias com produtores locais que antes vendiam apenas em feiras. A tecnologia entrou pela porta dos fundos — não como substituta do balcão, mas como extensão dele.
Desafios que permanecem
A recuperação não é uniforme. Em bairros onde o poder aquisitivo caiu significativamente, muitas lojas de esquina ainda operam com margens apertadas. A concorrência dos supermercados de proximidade e dos aplicativos de entrega continua forte, especialmente entre consumidores mais jovens que não construíram o hábito de comprar no comércio local.
Além disso, a escassez de mão de obra qualificada afeta o setor. Dona Neuza conta que já ofereceu emprego a quatro pessoas nos últimos dois anos; duas aceitaram e saíram em menos de três meses. "O rapaz queria ganhar o mesmo que numa empresa grande, mas aqui ele aprende tudo, conhece todo mundo. Não é só salário — é outra coisa."
O que o futuro reserva
Pesquisadores em varejo apontam que o comércio de esquina pós-pandemia ocupa um espaço peculiar: não compete de igual para igual com grandes redes, mas oferece algo que elas não conseguem replicar em escala — confiança, personalização e pertencimento. Lojistas que entenderam isso e investiram na relação com a comunidade estão, em geral, melhor posicionados.
Para Dona Neuza, o futuro é simples: continuar abrindo às seis da manhã, como sempre fez, e manter a prateleira da esquerda reservada para os produtos que os vizinhos pedem. "Se eu fechar, quem vai lembrar que a Dona Célia gosta do requeijão da marca tal? Ninguém. Isso tem valor."
O comércio de esquina pós-pandemia não voltou ao que era — e talvez isso seja positivo. Voltou mais consciente de seu papel, mais conectado à vizinhança e, paradoxalmente, mais necessário do que antes.